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O estado dos objetos, quando achados, varia entre quase perfeitos (como o clyster uretral, ainda em estudo para uso) e completamente carcomidos, ou até quase irreconhecíveis, como por exemplo, o pedaço de clyster maior, que só foi reconhecido em conexão com a comadre, usada concomitantemente. No catálogo da JXS, também há fotografias das peças no seu estado original, antes da limpeza e restauração por especialista.
O Sr. John Somers dedicou quase 5 anos a um trabalho de pesquisa visando a identificação, restauração e reprodução desta coleção. O catálogo ao lado mostra o produto deste trabalho. O achado se divide em duas partes distintas: Utensílios de uso diário dos oficiais e utensílios (Gereetshappen, em holandês da época) do cirurgião.
A primeira categoria contém utensílios de mesa, de comida e de bebida, muito interessantes e que concordam perfeitamente com as cenas de interiores, tão conhecidas da pintura holandesa da época. Por exemplo, temos o famoso pichel Jan Steen com bico longo para facilitar seu uso à mesa. As colheres, escudelas e a bacia grande são provas da maneira de comer e do tipo de comida da época, a maior parte da qual era ensopado.
O saleiro de estanho é muito interessante. Esse formato, alto, aberto, é conhecido de inúmeras Naturezas Mortas da época, em prata ou mesmo ouro. O saleiro tinha, na Idade Média, um significado social e um simbolismo muito grande. Sal era sagrado, é raiz das palavras soldo e soldado, com atribuições mágicas, foi a primeira "commodity" da Europa, que permitia salgar e conservar comidas durante o inverno duro.
Em 1648 a forma perdurava, mas o simbolismo enfraquecia. O nosso exemplar é um tambor ou cilindro, reversível, com duas pontas com depressões para o sal, de formato igual. Ainda não temos explicações para isso. Os dois pichéis, que batizamos com o nome Amsterdam, não tem semelhantes em nenhum quadro da época conhecido por Sr. John Somers, nem ele tem visto igual em qualquer coleção do mesmo período, porém a forma é parecida com outros conhecidos de Amsterdam.
Da colher "Trifid" achou-se uma inteira e restos de outra. Em 1648 esta forma era bem moderna, recém introduzida. Temos na coleção outras colheres de vários formatos, uma das quais de prata, muito bonita e trabalhada, do tipo conhecido como "Apostle spoon", em inglês.
O penico, utensílio pouco sujeito a modismo, corresponde exatamente aos tantos que aparecem com muita fidelidade e representação nos interiores da época.
Um pequeno grupo interessante é composto pelo castiçal de latão, o compasso e tinteiro, que podemos presumir tenham sido de uso do capitão. O uso de chamas a bordo era muito controlado devido ao risco de fogo e não menor risco de explosão. O tinteiro é o mais antigo exemplar deste formato conhecido no mundo. A forma continou em uso até meados do século XX.
Porém, o que imprime a este achado o cunho de "excepcional" é o grupo de objetos de uso do médico. Os clysteres, a espátula, a comadre, a caixa de ungüentos e a ventosa, são de fácil identificação, mas a identificação do conjunto inteiro se deve à inestimável ajuda da Sra. Odilia van Boetzelaer do Rijksmuseum, Amsterdam, que estava pesquisando exatamente o equipamento de bordo dos navios da Companhia das Índias Orientais de meados do século XVIII, e nos mandou uma cópia das instruções dadas aos cirurgiões destes navios, datada de 1739. Embora nosso navio tenha afundado 91 anos antes, a lista dos utensílios coincide, quase que exatamente, com o que nós achamos.
Além dos objetos de estanho reproduzidos por John Somers, e oferecidos na "Caixa do Cirurgião", foram também achados os seguintes objetos que constam da Ordre en Instructie Voor de Chirugyns:
· 1 Almofariz (Holandês: Mortier en Stamper)
· 1 Tesoura (Holandês: Scheerbekken. Ainda se encontra sob concreção).
· 1 Funil (Holandês: Trechter)
· 2 Panelas (No Museu de John Somers temos três panelas de cobre, mas não temos certeza de que sejam as mesmas aqui mencionadas).
· 1 Balança (Holandês: Schaaltje met gewicht). Não foram achados os pesos.
· 1 Pedra de afiar (Holandês: Oly Steen)
Os originais destes se encontram no Espaço Cultural do Museu da Marinha Praça XV, Centro - Rio de Janeiro e outros no Museu da fabrica da John Somers em uma cidade Histórica, São João Del Rei - Minas Gerais, com todo merecimento pela preservação do trabalho de Arqueólogia Subaquática, Cultural da Museulogia e a História Maritima do Brasil.
Os itens do cirurgião estão sendo oferecidos em edição limitada de 5.000 peças. Pode-se adquirir o conjunto inteiro no estojo, que imita uma caixa do século XVII, com numeração de 1 até 200, ou pode-se comprar as peças uma a uma, sendo usados os números de 201 em diante para as peças avulsas.
Todas as peças são classificadas com seu nome Galeão Utrecht, com a data do seu naufrágio em 1648 e o lugar na Bahia. Além disso, cada item das peças do cirurgião é carimbado com seu número individual da edição.